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| Acrodreams
in Europa - 2004 |
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Por Marcelo "22" Borzino
A temporada
Mais uma vez a temporada mundial de acrobacia com parapentes
surpreendeu a todos os apaixonados pela modalidade com
shows que em muito superaram as expectativas do mundo
acro.
Com um incrível aumento do profissionalismo por
parte das organizações dos eventos e com
as inovações trazidas pelos melhores pilotos
do mundo o resultado não poderia ser outro: o mais
espetacular e empolgante circuito de todos os tempos.
É importante ressaltar que a partir deste ano o
circuito de provas européias passa a servir como
base para a formação do ranking mundial
de acro criado pela FAI e por isso mesmo muitas regras
foram acrescentadas aos regulamentos das já tradicionais
provas.
A temporada foi marcada por uma enxurrada de velas "acro"
que vêm sendo lançadas pelas grandes marcas
do parapente mundial. Parece que o que se disse no ano
passado vem sendo confirmado integralmente: o futuro do
parapente na mídia é o parapente acrobático,
e as fábricas lá fora já perceberam
isto.
Os destaques foram: a vela G-Force da novíssima
U-Turn, comandada por Ernst Strobl e a ReACTion da também
novíssima ACT, a qual tem como um dos sócios
o consagrado piloto Raul Rodriguez e que também
conta com a experiência dos pilotos Pablo Lopez
e Peter Brinkeby no desenvolvimento de suas novas velas.
O Sixty-nine da Ozone, o UP Rock, o Intox da Mac Para
e o Dune versão "acro" da Aerodyne também
provaram ser excelentes velas para a modalidade.
Quanto às manobras o que houve foi um incrível
refinamento nas suas execuções e as novidades
ficaram por conta das "conexões" entre
diferentes manobras. As conexões com os maiores
coeficientes de dificuldade existentes até então
nos regulamentos das competições foram:
"Mac Twist para helicóptero", "helicóptero
para SAT" (esta uma das mais difíceis de se
fazer, pois não se pode deixar a vela entrar em
vôo durante a conexão) e "SAT para Helicóptero".
Foi Felix Rodriguez, durante uma exibição
no Acroaria, quem "assombrou" a comunidade acro
presente com a conexão mais espetacular jamais
apresentada: ele simplesmente realizou um Tumbling e na
terceira volta (quando normalmente a vela já está
sem energia e "pedindo" para sair da manobra)
ele começou a fazer dali mesmo os movimentos do
SAT Rítmico, mantendo o "tumbling" por
nove voltas consecutivas! Foi a coisa mais impressionante
que já presenciei em uma demonstração
de acrobacia com parapente. Ver o piloto passar por cima
da vela por nove vezes consecutivas beirou o inacreditável
e aplacou completamente minha síndrome de "São
Tomé", isto é, só acreditei
porque vi.
Raul Rodriguez também esteve espetacular, embora
esteja saindo de um sério acidente em que se envolveu
com seu companheiro de equipe Pablo Lopez. Na verdade
Raul e Felix parecem estar tão adiante dos demais
pilotos que mesmo Raul estando "sem treinamento"
nas últimas semanas é difícil pensar
em um adversário à sua altura que não
seja seu irmão Felix.
A esperança francesa é o habilidosíssimo
Antoine Montant, que já este ano deu muito trabalho
para os irmãos espanhóis e seguramente será
um forte concorrente ao primeiro lugar dos pódios
no próximo ano. Vejamos então como foi a
temporada etapa por etapa.
O Primeiro desafio da temporada: o Vertigo Voss na
Noruega
Realizada nos dias 21 a 28 de junho deste ano esta competição
terá certamente lugar cativo na história
da acrobacia com parapentes e provavelmente abrirá
as portas para um novo formato de eventos acro a serem
realizados em locais desprovidos de uma decolagem de montanha.
O segredo da "mágica": decolagem de um
helicóptero! Isto mesmo, a partir de agora basta
um local com "água em baixo" para que
uma competição acro possa ser realizada.
Esta inovação somente foi possível
graças a um já conhecido dispositivo de
"decolagem" a partir de uma aeronave-base em
movimento: o "D-Bag", que funciona basicamente
como uma "fraldinha de reserva tamanho família"
presa do lado de fora da aeronave-base e que acomoda o
parapente todo dobrado de uma forma especial, deixando
o piloto pendurado pelas linhas e selete. Na hora "H"
basta o piloto (já em posição de
vôo e pendurado do lado de fora da aeronave-base)
destravar o mecanismo de liberação do paraca
e "entrar em vôo". Este dispositivo vem
sendo utilizado para "decolagens" de balões,
helicópteros e trikes, especialmente em eventos
promocionais.
Pois bem, voltemos ao que interessa: a competição.
Esta foi a primeira vez que os irmãos Rodriguez
duelaram um contra o outro após saírem da
Edel (e defendendo fábricas diferentes). O lugar
mais alto no pódio ficou com Felix Rodriguez, voando
o novíssimo G-Force da recém-criada U-Turn.
Ernst Strobl, renomado projetista alemão que nos
últimos anos trabalhou para a Airea e um dos donos
da U-Turn, conseguiu criar sem sombra de dúvida
um dos melhores gliders do mundo para acro (segundo Felix
"o melhor", mas sua opinião é
meio suspeita...). O glider, oferecido nas versões
de 18 e 20 metros quadrados de área real, se mostrou
excelente tanto nas manobras dinâmicas, quanto nas
manobras de estol, inclusive adequando-se muitíssimo
bem à manobra de maior coeficiente de dificuldade
da temporada: o SAT Rítmico, que consiste numa
seqüência em que o piloto ingressa num SAT
básico e depois progressivamente (volta a volta)
vai transformando a manobra num Tumbling.
Felix não só realizou o mais complexo programa
de manobras como também colocou mais de 27 pontos
de vantagem sobre seu irmão Raul, o segundo colocado,
e que estava voando com a também novíssima
ReACTion de 19 metros quadrado, da também recém-criada
ACT, nova marca de velas criada pelo pessoal da AIREX
em parceria com o próprio Raul Rodriguez (importante
distribuidor de material de vôo na Europa). Em terceiro
lugar ficou o mais novo "astro" da acrobacia
com parapente: o francês Antoine Montant, voando
um "velho" Gradient Avax RS "XS" com
linhas de competição.
A grande altura de que dispunham os competidores (mais
ou menos 1.800 metros sobre o lago), proporcionada pela
decolagem do helicóptero, serviu como incentivo
"a mais" para que todos colocassem "na
mesa" os respectivos repertórios de manobras,
tornando os resultados muito mais seletivos em função
da habilidade de cada piloto.
Embora a diferença de pontos entre o primeiro e
o segundo colocados tenha sido significativa, vale ressaltar
que das cinco provas realizadas, três foram vencidas
por Felix, com Raul em segundo, e duas foram vencidas
por Raul, com Felix em segundo, o que demonstra por si
só a superioridade desses caras. O que acabou por
prejudicar um pouco a performance de Raul foi a maior
dificuldade de encadear algumas manobras com a manobra
helicóptero (o que conta muito numa competição),
o que pode-se dizer, embora num tom meramente especulativo,
se deveu ao fato de o ReACTion ainda não estar
totalmente "ajustada" naquela data (até
porque Raul se envolveu em um sério acidente recentemente,
durante o Festival de El Yelmo em Jaén, Espanha).
Todavia, a vitória de Felix Rodriguez foi inquestionável
e mais que merecida.
A Segunda competição: o Acroaria na Itália
Com o cancelamento do Acrocup na Slovenia a segunda prova
da temporada foi o tradicional Acroaria, realizado na
simpática cidade de Omegna ao norte da Itália.
O evento, que a cada ano cresce em organização
e participação, contou com uma esplendorosa
semana de bom tempo e proporcionou ao público presente
o mais clássico campeonato de acrobacia da face
da terra. Digo "o mais clássico" não
por ser o maior (pois o Acrovertigo o supera em tamanho,
embora não tanto assim), mas sim por ser a competição
que melhor espelha o verdadeiro espírito acro,
ou seja, muita manobra e muita brincadeira no que mais
parecia ser uma jam session entre bons e velhos amigos.
É impressionante o clima de descontração
que impera neste evento, onde cada competidor (melhor
seria dizer: participante) vibra e incentiva seus "rivais".
Vale lembrar que o encontro funciona também como
importante centro de troca de informações
sobre as mais recentes descobertas acrobáticas.
A competição foi dividida em duas categorias:
a syncro e a solo, sendo que os pilotos só poderiam
optar por uma delas. Isso fez com que a categoria solo
deixasse de contar com a participação de
vários ícones do esporte, eis que normalmente
as fábricas envolvidas com a acro sempre mantém
pelo menos dois pilotos preparados para as competições
syncro (que de certa forma sempre ganha mais espaço
na mídia especializada).
A dupla formada "em cima da hora" pelos irmãos
Rodrigues (é bom lembrar que desde o início
do ano, após juntarem-se a fábricas diferentes,
os irmãos não vinham treinando juntos) e
as duplas das marcas Gin (Mathias Rotten/Dominique Steffen),
Ozone (Antoine Boisselier/Lionel Baudrier), Airwave (Dominique
Eller/Steffen Rhodek), Independence (Alex Meschuh/Bernd
Hornboeck), Aerodyne (Raoul Geiger/Jürg Hacki), Sol
(Renatinho de Poços/Curreca) dentre outras, fizeram
dos céus de Omegna o palco de um espetáculo
digno da Broadway. A vitória? Adivinhem com quem
ficou... Como no ano passado ganha um doce quem adivinhar...
Exatamente, mesmo sem treinarem juntos desde o início
do ano os irmãos Rodriguez ficaram pela quinta
vez (e esta foi a quinta edição do Acroaria)
com o lugar mais alto no pódio, deixando a excelente
dupla da Gin em segundo e a dupla da Independence em terceiro.
Infelizmente a dupla brasileira formada por Renatinho
e Curreca não foi bem na competição
syncro, ficando apenas com a penúltima (11ª)
colocação.
Já a categoria solo foi facilmente dominada por
Antoine Montant, seguido por Hervè Cerruti e Horacio
Lorens, respectivamente. Aqui o Brasil conseguiu um honroso
quinto lugar com Fábio Barreto Fava, mostrando
que a acro tupiniquim cesce dia a dia.
Um fato marcante da competição solo foi
o sétimo lugar da piloto Seiko Fukuoka, que é
namorada de ninguém menos que Felix Rodriguez (pelo
jeito a coisa pega por "osmose"... ou pega por
outra coisa... sei lá...). Embora esta piloto não
realize algumas das mais radicais manobras, possivelmente
por lhe faltar força física, seus "perfeitos"
helicópteros a colocaram nesta magnífica
posição, deixando a todos a impressão
de que a acro feminina, que ainda não tem uma categoria
em separado, já tem sua estrela maior. Agora é
esperar para ver como ela virá no ano que vem.
O terceiro embate: o Acrovertigo na Suíça
Esta competição, que no próximo ano
será o 1º Campeonato Mundial de Acrobacia
com Parapente da FAI, contou com sua já tradicional
superestrutura, bancada principalmente pela Red Bull.
Ao contrário do Acroaria, a competição
conta exclusivamente com a categoria syncro, motivo pelo
qual a grande maioria dos pilotos que normalmente competem
na solo foi obrigada a formar uma "dupla de última
hora" para pontuar no ranking FAI de 2004. O resultado
disto foi um show de "desincronização"
por parte destas "pseudo-duplas" durante o evento.
Todavia, o espetáculo, muito bem organizado por
sinal, agradou muito ao público presente e mais
uma vez... adivinhem... os irmãos Rodriguez venceram!
Em segundo lugar ficou a dupla formada pelos pilotos Peter
Neuenschwander e Chrigel Maurer (que no ano passado também
ficou com a segunda colocação), e em terceiro
lugar, como no Acroaria, a dupla da Independence (Alex
Meschuh e Bernd Hornboeck).
A dupla brasileira Renatinho e Curreca ficou desta vez
com a 13ª colocação, enquanto que Fabio
Barreto Fava não passou do primeiro round com seu
companheiro francês Hans Prunaretty.
O quarto e último confronto: o Acrolac na França
O Acrolac é tido por alguns pilotos como uma competição
"pouco seletiva" por ser disputada em um lugar
onde os pilotos têm pouco mais que 350 metros de
desnível (menos ainda quando se "toma para
baixo" durante o percurso até o lago) para
realizar suas manobras (logo, o nivelamento dos pilotos
é feito "por baixo"). A maior prova disto
é o fato de o piloto Raul Rodriguez ter ficado
com a 12ª colocação após ganhar
as duas primeiras baterias (na última ele não
conseguiu realizar, em função da falta de
altura, toda a seqüência programada).
Felix Rodriguez também não participou da
competição e deixou para Antoine Montant
a primeira colocação (no Acrolac só
existe a categoria solo), seguido de Horacio Lorenz e
Hernan Pitocco, respectivamente.
Fábio Barreto Fava conseguiu a melhor colocação
de um brasileiro em competições "acro"
internacionais: um excelente 4º lugar. Já
os pilotos Renatinho e Curreca ficaram com a 17ª
e a 25ª posição, respectivamente.
A nota triste fica por conta da morte de um B.A.S.E. jumper
que fazia uma demonstração no último
dia de competição. Parece que seu pára-quedas
não abriu após saltar de um duplo sobre
as águas do Lago de Aiguebelette, em Savoie.
Até a próxima temporada mundial de acrobacia
com parapente.
Bons vôos e happy tumblings!
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Marcelo
Borzino foi um exímio piloto de acrobacia com
parapente.
Participou
de competições em diversos países
da Europa e Américas.
Faleceu
em 2007 em acidente sofrido em treinamento
para competições.
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