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Por Marcelo "22" Borzino
Pois é galera alada, seguiremos aqui com a segunda
parte do texto que trata do assunto "espirais simétricas".
Gostaria de convidá-los a mergulharem comigo
nesse mundo giratório de G's acentuados e altas
velocidades tangenciais (para os nossos padrões,
obviamente...).
Antes de mais nada, quero novamente chamar a atenção
para o fato da existência de duas formas de classificação
das espirais simétricas: a chamada "regular
spiral" e a intrigante "over the nose spiral".
Essa classificação é, ao meu ver,
pelo menos até o presente estágio de evolução
da arte, de relativa utilidade, pois acaba por vezes
confundindo aqueles pilotos que ainda estão naquela
fase de realizarem manobras quase que mecanicamente,
isto é, sem compreenderem a fundo (pelo menos
durante a execução da espiral) os fluxos
de ar, ângulos de incidência do bordo de
ataque com relação ao horizonte, variações
de afundamentos e energias. Aliás, é muito
comum notarmos que o piloto de pouca intimidade com
estas técnicas só percebe o quão
"forte" ou "fraca" foi sua espiral
em termos de afundamento posteriormente, mais precisamente
quando ele checa seu vario.
Ora, independentemente dos G's envolvidos, que às
vezes dão a impressão de se estar realizando
uma "super-espiral", um piloto que domina
corretamente sua técnica de realização
(e conhece bem o equipamento em que voa) já tem
uma idéia precisa sobre o atingimento ou não
de altas taxas de afundamento, muitas vezes chegando
a acertar com precisão cartesiana a exata taxa,
antes mesmo de verificar no vario.
Em verdade, essa acima mencionada divisão/classificação
tem um cunho muito mais didático que prático
propriamente, uma vez que a diferença entre uma
e outra reside em diferenças de intensidade de
fluxos, velocidades tangenciais e afundamento, sendo
todos esses fatores controláveis e variáveis
conforme a técnica de pilotagem aplicada e o
equipamento utilizado. Ou seja, é possível
variar entre uma "configuração"
e "outra" com maior ou menor facilidade dependendo
da técnica e do equipamento em questão.
Vejamos então esta "outra" configuração
que nos faz repensarmos aquela velha ladainha sobre
velas com estabilidade positiva, neutra ou negativa
em espirais simétricas.
A "Over the nose spiral": entrada, manutenção
e saída
O nome já nos dá uma boa pista de como
ela é vista por quem está "de fora".
Na verdade, se tirarmos uma foto aérea de um
piloto em uma "espiral acima do nariz" ("over
the nose spiral") no momento em que ele está
"passando" por nós, verificaremos que
o conjunto piloto/selete está um pouco mais abaixo
do plano da vela, embora esta esteja com o bordo de
ataque paralelo ao horizonte. Isto se dá porque
a vela está literalmente "voando para baixo"
e como o piloto tem uma massa muito superior à
da vela (ainda mais com a selete, reserva e outras bugigangas)
ele terá sempre um peso maior e sua aceleração
em direção à terra será
sempre maior também (sem falar nos arrastos).
É claro que outras forças estão
envolvidas neste processo e a decomposição
deste movimento em vetores (com a respectiva tradução
em fórmulas matemáticas) está absolutamente
fora de minha competência, mas creio ser razoável
entendermos que a velocidade tangencial desta configuração
(que é menor que a velocidade tangencial em uma
"regular spiral") e a respectiva força
centrífuga servem para dar estabilidade ao conjunto,
fazendo com que seja possível manter as bocas
do glider completamente voltadas para o "chão",
enquanto o mesmo chega perto de sua velocidade limite.
É como se a trajetória circunferencial
do conjunto, com todas as suas forças e movimentos
envolvidos, fosse justamente o necessário para
manter o glider "voando para baixo", algo
impossível de se manter em uma trajetória
retilínea, dada a diferença de pesos e
arrastos entre a vela e o conjunto piloto/selete. É
por isso que temos a impressão de estarmos progressivamente
nos acostumando com os G's e, portanto, fazendo espirais
cada vez mais fortes (o que é confirmado pelo
vario), quando na verdade em muitos casos isso não
é verdadeiro quanto à nossa adaptação
aos altos G's (que dependem de aspecto fisiológicos
próprios e não de treinamento em si).
O que acontece é que estamos justamente entrando
nesta "diferente" configuração
chamada "over the nose spiral". Isto é
algo bom por uma lado, pois estamos ultrapassando nossos
limites aos poucos, mas também é perigoso
por outro lado, pois ao explorarmos um território
para nós desconhecido expomo-nos às suas
intempéries, que por vezes acaba por nos pegar
desprevenidos. Por exemplo, muitos gliders homologados
DHV 1-2 simplesmente não saem espontaneamente
desta configuração, uma vez que não
foram testados nessas condições (vide
1ª parte anterior). Nesses casos, se o piloto não
comanda a saída (ou joga o reserva) a tragédia
é inevitável, ou se no desespero, aciona
bruscamente, e por um tempo maior que o necessário,
o "freio externo", o pêndulo assimétrico
que daí resultará também poderá
trazer seríssimos problemas para o desinformado.
Logo, é preciso reconhecer e saber lidar com
todas essas variações.
Quero deixar muito claro que o fato de a velocidade
tangencial e a força centrífuga serem
menores na "over the nose spiral" não
significa que o piloto conseguirá resistir sem
maiores problemas ao G-LOC ("G Lost Of Conciousness"
ou "perda de consciência por G"). Isto
porque a forças G's atingidas nesta "configuração"
são também relativamente altas, embora
normalmente menores que na outra, mas em contrapartida
a velocidade com que se atinge tais G's é muito
maior, ou seja, a aceleração até
sermos afetados por esses relativamente altos G's é
que nos faz sentir com maior freqüência suas
conseqüências, podendo nos levar à
perda da consciência. Quando somos avisados de
que isto está para acontecer, por meio de sinais
como "flashes", "visão acinzentada",
"black outs rápidos", etc., temos ainda
chance de diminuir a força G por intermédio
da pilotagem, ou até mesmo por uma reação
natural da vela, desde que ela saia espontaneamente
da configuração (mas isto nós não
sabemos de antemão, pois o DHV não testa
este tipo de reação a esta configuração).
Justamente aí reside o perigo. Imaginem um piloto
que desconhece a configuração "over
the nose" e voa com uma vela homologada DHV 1-2
(mas que não sai espontaneamente dessa configuração).
Ele então entra com um "pouco mais de vontade"
do que o usual em sua "espiralzinha de final de
tarde" e, sem saber exatamente o que está
fazendo, é submetido a uma rapidíssima
aceleração centrífuga, chegando
não a apagar repentinamente (não sejamos
tão dramáticos, embora isso possa acontecer,
dependendo das condições físicas
do piloto), mas sim a começar a "ver flashes"
dispararem. Das duas uma, ou o piloto intervém
e sai da espiral (ou pelo menos diminui o G, a fim de
dar tempo ao organismo de se reequilibrar - sem contar
com a hipótese de jogar o reserva) ou ele terá
em breve um encontro com o cara lá de cima (ou
lá de baixo... sei lá eu). O pior é
que justamente nestes momentos é que o piloto
inexperiente descobre que o freio externo fica muito
mais "duro" que o normal para sair de uma
espiral e, levando-se em consideração
que ele já estava "vendo flashes",
é bem pouco provável que saiba exatamente
como sair da situação. Muitas vezes, o
instinto de sobrevivência do piloto faz com que
ele atue de maneira excessiva no freio externo, ao ver
que "não estava saindo" da manobra.
Nesses casos, depois da tempestade... vem a "ambulânça",
isto porque se não estava preparado para a entrada
da manobra, muito provavelmente também não
estará preparado para a sua saída, que
em virtude da atuação excessiva resultará
num pêndulo assimétrico "monstro"
(e que se não acertado com comandos precisos
poderão gerar uma "bela" gravata ou
mesmo iniciar um sério "efeito cascata"
de colapsos). Quantas vezes não ouvimos alguém
comentar, como nítida surpresa, como teve de
atuar forte daquela vez para sair da espiral que teimava
em permanecer? A explicação para isto
reside justamente nestas diferenças que aqui
estamos a abordar.
Mas qual a forma para se entrar numa configuração
como a "over the nose"? Bem, em primeiro lugar
temos que levar em consideração que não
se deve submeter o próprio corpo a uma rápida
aceleração centrífuga sem antes
conhecer suas reações à mesma.
Por isso, recomendo que antes de tentar entrar nesse
tipo de espiral pela primeira vez, aliás, em
qualquer espiral (que deverá ser realizada com
o acompanhamento de um instrutor competente para tal
e de preferência sobre a água), o piloto
execute um vôo como passageiro com um piloto já
habituado a altas acelerações e G's, para
que dessa forma possa verificar sua resistência
ao "tranco". Isto, mesmo levando-se em consideração
que o piloto goze de perfeita saúde e aptidão
física para grandes esforços, o que também
penso deveria ser requisito (tais exames físicos)
para a realização de manobras com parapentes.
A partir daí, a técnica de entrada na
manobra é bastante simples, muito embora alguns
parapentes tenham maior dificuldade para ingressar nesta
configuração, enquanto que outros têm
até muita facilidade. O piloto deve jogar o corpo
para o lado que preferir e acionar o freio do mesmo
lado progressivamente. Tal acionamento do freio (a partir
de agora chamarei de "freio interno") não
deve ser brusco (isto é, sem "explosão
muscular"), mas tampouco suave demais. Nesse aspecto,
diferentes velas responderão de diferentes maneiras
ao comando, fazendo com que não exista uma fórmula
predeterminada para esta execução, e por
isso mesmo deve o piloto ter absoluto domínio
de seu equipamento antes de tentar entrar diretamente
em tal configuração, sob pena de arrumar
para si uma bela negativa. Pois bem, no momento em que
a vela começar a "energizar" (em uma
vela de alta performance e instável, por exemplo,
isto se dará em menos de meia volta, enquanto
que em um duplo tal momento poderá ocorrer somente
após uma volta inteira), o piloto deverá
de uma só vez colocar a vela com as bocas totalmente
viradas para baixo, e isso se dará no limite
da negativa (daí o perigo). Tal efeito será
conseguido por meio de um acionamento brusco, mas controlado
do freio interno e por seu necessário ajuste
no momento de estabilização na espiral.
Aí é só manter, agüentar e
descer à 15, 20, 22 ou mesmo 25 m/s. Faço
um parêntesis aqui para repetir: jamais apliquem
as técnicas aqui descritas desacompanhados de
um instrutor competente e sem o seu respectivo aval,
pois as reações variam e muito de vela
para vela e isso aqui não é um curso de
manobras por fascículos!
A idéia básica é não deixar
o conjunto adquirir muita velocidade tangencial/aceleração
centrífuga, para que desta forma a energia seja
suficiente para manter a vela apontada ("voando")
para baixo, mas com o mínimo de dissipação
em virtude da resistência ao movimento circular
(este necessário para estabilizar a vela na posição).
Muitas velas hoje em dia, inclusive algumas homologadas
DHV-1, aceitam uma entrada mais fácil (às
vezes involuntária) e segura na configuração
"over the nose", por meio de uma entrada em
"regular spiral" (vide matéria anterior),
mas com um simples acionamento um pouco mais brusco
no momento em que a vela está passando dos 45º
(bordo de ataque) em relação ao horizonte.
Daí a minha preocupação em divulgar
essas técnicas e suas respectivas conseqüências.
A saída é basicamente a mesma descrita
na edição anterior para a "regular
spiral", mas com a diferença que a primeira
fase da saída deverá ser um pouco mais
longa, eis que o afundamento também será
maior. É preciso diminuir primeiramente esse
grande afundamento antes de anulá-lo por completo,
e é justamente nesse momento que o piloto estará
transformando sua "over the nose spiral" em
uma "regular spiral". Também estará
aumentando um pouco a sua velocidade tangencial e a
respectiva força centrífuga, o que será
de valia para o giro de dissipação. Para
tal fim, deverá o piloto acionar progressivamente
o freio externo (sem o corpo, para não se correr
o risco de trazer a vela para cima da cabeça
prematuramente - a não ser que o piloto saiba
como lidar com a situação), até
que o glider perca a tendência de ficar com as
bocas absolutamente voltadas para baixo. Para quebrar
essa inércia às vezes é necessário
fazer bastante força, chegando a dar a impressão
de que a linha do freio se romperá. A partir
daí segue a técnica já detalhada
na 1ª parte desta matéria.
Mais uma vez fica o lembrete: por "via das dúvidas"...
comande sempre a saída de sua espiral.... ok?)
Marcelo "22" Borzino
SOL Paragliders - Acro Team Member
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